INTERNAUTAS MISSIONÁRIOS DE JESUS (Parte III) 12/11/2002

"Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom."

(Gn 1,31a)

 

- "... Estou precisando muito das pessoas, das conversas de pessoas confiaveis, de um ombro amigo, de compreensão, de coração."

Essa afirmação de seu (nosso) amigo me marcou bastante porque ele expressou perfeitamente toda a ansiedade de uma possoa carente de todas as coisas que relacionou.

Anteriormente a qualquer concepção que tenhamos de religião, existem elementos de nossa natureza que precisam ser interiormente afirmados e que nos dão uma maturidade e uma consciência de valor, base sobre a qual se assentará a graça de Deus, elevando esta natureza humana a um diálogo com o divino e que caracterizará o ser espiritual ao qual somos chamados a assumir. Falo isto porque conheço pessoas agnósticas, céticas ou mesmo atéias que porém, como pessoas, dão um show de humanidade em muitos cristãos mal assumidos. Penso nos cientistas que doam suas vidas pela busca de cura de doenças que afligem o mundo, de policiais que arriscam a vida para manter a ordem, ou, simplesmente, de voluntários que se metem nos escombros dos desastres para recuperar corpos muitas vezes ainda com vida... Muitas dessas pessoas não creem em Deus mas se perguntarmos o porquê de suas ações, certamente dirão que acreditam na vida e que o homem vale por si mesmo. Não pretendo eliminar nada dessas concepções pois sei que o divino não elimina o humano, mas o eleva. Penso que elas representam o primeiro passo; penso que nao podemos nem mesmo dar o segundo sem elas, ou seja, para que tenhamos uma boa relação com Deus e com os homens, é preciso que primeiro acreditemos na vida e no valor do homem. Quando compreendermos o amor de Deus por nós, compreenderemos também que todo o valor que tínhamos dado ao homem é apenas confirmado e esclarecido.

Dizendo isso já admito a via inversa também: Deus pode tocar nossa alma primeiro e nos fazer compreender logo depois a necessidade da nossa propria auto-afirmação como pessoa e da afirmação do outro como ser valioso e digno de ser respeitado. Creio que isto que escrevi delineia os dois tipos de conversão: a primeira, gradual, do humano para o divino, como a dos apóstolos; a segunda, brusca, do divino para o humano, como a de São Paulo; ambas não se dão sem a graça de Deus e nenhuma acontecerá realmente se não abarcar as duas realidade do homem inteiro: o humano e o divino.

Hoje mesmo eu conversava com um companheiro de caminhada: a maioria das pessoas com quem conversamos nos chat's não tem consciência de seu próprio valor. Ora, como buscar carinho e atenção para nossa pessoa se essa não é amadurecida no seu valor? Será como derramar água num copo sem fundo. Nenhuma atenção externa nos saciará se nos faltar a base.

Falemos pois da base: ainda que os nãos não crentes possam chegar sozinhos à noção do próprio valor, esse será sempre imperfeito, como uma imagem, uma sombra da verdeira noção de valor do homem dada por Deus e realizada em plenitude pela pessoa de Jesus. Nós somos imagem e semelhança de Deus e em Cristo Deus se fez homem para reconduzir nossa humanidade de volta para Si, depois da queda do pecado. A partir de Cristo nós somos membros do seu corpo e templos do Espírito (1Cor 3,16). Como então sofrer solidão e pensar-se sozinho se Deus tanto já nos amou e por primeiro? Falta-nos é consciência desse amor. Infelizmente a certeza interior não pode ser transmitida... ela deve ser alcançada e a graça ajuda a natureza na busca. Então compreendemos que tudo que já recebemos de Deus (via vertical) só se concretiza em nossa vida se o repassarmos para os outros (via horizontal). Penso que a luz do sol não cobra das plantas o calor que a elas oferece. Estas, por sua vez, gratuitamente elaboram com a luz recebida a fotossíntese, transformando da seiva bruta, a doçura da fruta que comemos. Veja quanta gratuidade na natureza! Assim deve ser nossa vida: Deus ama o outro através de mim e meu (de Deus) amor oferecido gratuitamente se realiza e realiza a mim mesmo no simples ato de dar. Se damos sem cobrar, receberemos sem esperar, ainda que de outras fontes, que não sejam, necessariamente as mesmas que de nós ja receberam.

Tenho certeza que precisamos aprender mais de São Francisco de Assis a liberdade de amar e a gratuidade de oferecer esse amor e assim aprender que o que precisamos é dar e não receber e que o dar tem que ser totalmetne livre de qualquer esperança de retribuição.

Como ter consciência do proprio valor e ao mesmo tempo ser humilde? Mantendo na consciência a lembraça de que o valor próprio não é exatamente nosso, mas de Deus; é ele que nos restaura e valoriza. "Humilde é a pessoa que recohece a grandeza d'Aquele que nos criou, sabe quão precioso e grande é o Dom da Vida que recebemos, mas também reconhece suas limitaçãos com lentes reais, sem aumentá-las ou diminuí-las, ou seja, alguém que "caminha na verdade de si mesmo" (muito difícil!!). Também não se sente superior nem inferior as outras pessoas, sejam elas quem forem."... Realmente difícil, mas o amor facilita tudo. Penso que a auto-estima está por perto: saber do próprio valor sem deixar de reconhecer a gradiosidade de quem nos concedeu tal valor. Se esquecemos o Criador, a auto-estima vira simples orgulho da criatura, perde o caráter sobrenatural.

"O que esta certeza muda na nossa vida? A pessoa carente é aquela que não tem consciência do próprio valor? O que a incerteza quanto ao próprio valor acarreta na vida das pessoas?" Penso que suas perguntas quase se autorespondem; a pessoa sem consciencia do proprio valor não pode amar de verdade pois fundamenta toda relação em uma reciprocidade obrigatória e pior ainda: como não se ama, não sabe que tem amor para dar e pensa que tem que ficar no centro e esperar que as pessoas venham amá-las. Ora, nós já temos amor (de Deus) em abundancia e é na espontaneidade do dar que o receber acontece de forma livre quando nada esperamos.

Apesar de não estar ainda satisfeito com o que escrevi até agora, vou mudar o assunto, caso contrario escreverei a noite toda.
"... já pedi muito a Deus uma coisa que não acontece.... Já fiquei triste por isto... e me pergunto: Será que Deus não vai me atender? Será que não estou pedindo direito? Será que estou fazendo algo errado? Será que o meu pedido não é bom para mim? Será que a vontade de Deus para minha vida é outra?". Suas perguntas são muito simpáticas e inteligentes pois trazem junto as respostas... Também nas nossas relações com Deus não devemos nos firmar em uma relação de dar e de receber: se fosse assim seríamos eternos devedores e nos seria impossível corresponder com nossas ações às ações dele em nosso favor, desde a vida, a familia, a saúde, a salvação... Mas ele nos dá e não nos obriga a agradecer, mas espera pacientemente e se alegra e faz festa com os anjos por cada um de nós que se converte...(Lc 15,7). Nossas relações com Deus precisam assumir mais uma dimensão de louvor que de pedido; Ele deve ser o centro e não nós. Se pudéssemos nos imaginar como planetas, Deus seria o sol e nós girando em torno a ele e não o contrário: Deus girando em torno a nós... Mais uma vez pensemos em São Francisco: não consigo imaginar ninguém mais certo no caminho de Jesus, depois de N. Senhora (porque a missão dela foi diferente). O que poderia faltar a alguém que de nada precisava a não ser de anunciar o amor de Deus? E quanta gratuidade em dar da própria pobreza! Estive em Assis e me emocienei diante de seu túmulo de pedra bruta... Quisera Deus que nós compreendêssemos e experimentássemos tão grande amor... e Ele quer! Corramos na chuva! Cantemos com os pássaros! Saudemos a cada irmão (presença de Deus) com a paz! Acendamos luzes... e sem pretender seremos os primeiros a ser iluminados...

Não tenho as respostas que gostaria de oferecer; só Deus as tem; e Ele sopra em nosso ouvido interior segundo o seu próprio tempo e não segundo o nosso; mas se estamos nele, até mesmo as perguntas desaparecem; só a paz permanece.

"Estou tentando...". Eu também. Todos temos dúvidas: Deus é a Certeza.

"Nada te perturbe; nada te amedronte; tudo passa; a paciência tudo alcança; a quem tem Deus nada falta; só Deus basta." (Santa Teresa d'Avila)

Um abraço,

Francisco Ferreira